Trilhas da Ilha Grande: as 5 melhores (e a rede de trilhas T)
A Ilha Grande é, antes de tudo, uma ilha de trilhas. Não há carros — só uma rede de trilhas sinalizadas na mata (as trilhas numeradas ‘T’, de T1 a T16) que ligam a Vila do Abraão a praias vazias, cachoeiras, ruínas do século XIX e um pico de 982 metros. Quase toda caminhada começa a poucos minutos do cais do Abraão, e todas são gratuitas.
Estas são as cinco trilhas que eu indicaria a qualquer hóspede, do passeio fácil em família à subida pesada de um dia inteiro. Na maioria você não precisa de guia — só água, calçado decente e sair cedo. A única exceção real é o Pico do Papagaio, onde um guia local é muito recomendado.
As cinco trilhas num relance
| Trilha | Distância | Tempo | Dificuldade | Por que ir | Mapa |
|---|---|---|---|---|---|
| Lopes Mendes (T10 + T11) | ~7,2 km | 2h30–3h15 | Moderada–Difícil | A praia icônica da ilha | Wikiloc |
| Dois Rios (T14) | ~7 km | ~2,5 h | Moderada | História + uma praia selvagem | Wikiloc |
| Feiticeira (T1 + T2) | ~6,4 km | 90 min–2 h | Moderada | Ruínas, cachoeira, praia | Wikiloc |
| Pico do Papagaio (T13) | ~12 km ida/volta | 6–8 h | Difícil (guia!) | A grande vista do topo | Wikiloc |
| Circuito Histórico (T1) | ~1,8–3 km | 1–2 h | Fácil–Moderada | História, fácil, família | Wikiloc |
Antes de ir: segurança e o que levar
As trilhas são maravilhosas, mas continua sendo mata atlântica de verdade — e a ilha tem algumas manias honestas que vale conhecer antes de você botar o pé na estrada. Nada disso é para te assustar: a Ilha Grande é um dos lugares mais tranquilos que eu conheço. É só o tipo de coisa que eu contaria a um hóspede no café da manhã.
Na trilha.
- Saia cedo — antes das 8h–10h. Você evita o calor, a chuva da tarde e o risco de terminar no escuro.
- Leve pelo menos 2 litros de água por pessoa. A maioria das trilhas não tem água potável.
- Use calçado adequado para trilha. Depois de chuva o chão fica escorregadio e você vai se segurar em raízes, galhos e pedras — mantenha as mãos livres.
- Veja a previsão do tempo antes de sair e avise alguém do seu trajeto.
- Respeite a sinalização e não saia da trilha demarcada — é assim que as pessoas se perdem.
Saúde e insetos.
- Leve repelente e protetor solar, e reaplique os dois. Tem muito mosquito por aqui, mas a notícia boa é maior: nenhuma doença endêmica e nenhum surto em andamento — as picadas são um incômodo, não um perigo. O protetor importa porque as praias abertas e os cumes te dão pouquíssima sombra.
Dinheiro.
- Não há caixas eletrônicos na ilha — e trocar moeda estrangeira aqui é um péssimo negócio, então resolva qualquer dinheiro que você queira ainda no continente, antes de atravessar.
- Você não precisa racionar dinheiro para a volta. O barco de volta de Lopes Mendes, por exemplo, aceita cartão — e se não houver sinal de celular lá fora (em geral não há), eles te embarcam mesmo assim e fazem a cobrança no Abraão, onde o sinal pega bem.
- Defina um limite diário no cartão, se quiser — nunca é má ideia em qualquer lugar do Brasil. Fora isso, relaxe: a ilha é extremamente tranquila, sem golpes, sem furtos, sem assaltos.
Pague a Taxa Viva (a taxa de visitante de Angra) — não tente fugir.
Não caia na tentação de driblar a taxa embarcando ou desembarcando em pontos clandestinos (não oficiais) — um problema legal custa muito mais caro do que uma taxa de uns 8 euros. Todos os detalhes (preço, QR code, quem é isento) estão nas nossas dicas práticas.
Reservando um passeio de barco.
- Compre dentro de uma agência física e assine ali — nunca a partir de um número de telefone que te entregam na rua. Se algo der errado num combinado de rua, ninguém assume a responsabilidade: prometem um barco grande e você acaba num pequeno.
- Sempre pergunte que tipo de barco vai te levar, e peça que confirmem. Como regra geral: um barco-táxi (todos eles são o casco ágil “CF”) serve para uma travessia curta, mas para um passeio de dia inteiro de verdade ou a Volta à Ilha, pague um pouco mais por uma lancha maior e mais estável. A diferença toda está na seção de passeios de barco do guia de praias.
Um ponto de orgulho local.
O Brasil é um dos países mais lindamente diversos do planeta — a maioria dos brasileiros é negra ou parda — e aqui na ilha gente de toda origem convive em paz. Venha com essa mesma abertura e você vai ser acolhido como família. E essa harmonia é protegida pela lei: racismo é crime sério no Brasil — o mesmo tipo de aviso que eu daria sobre qualquer outra lei daqui — ou seja, este é um lugar onde cada um é livre para simplesmente ser quem é.
Regras da reserva — o que evitar.
Esta é uma reserva ecológica rigorosa, e você vai ver placas por toda parte. Nas praias é terminantemente proibido fazer fogo, churrasco, vender ou oferecer serviços, e o mau comportamento é punido por lei como seria em qualquer lugar. Para quase todo visitante isso é um não-problema: o público aqui é calmo e discreto — este não é destino de festa, de iate nem de farra. Basta respeitar as regras e a reserva cuida de você de volta.
Lopes Mendes (T10 + T11)

Temos um ditado na pousada: “se você não sabe o que fazer hoje, vá para Lopes Mendes.” Você caminha horas pela mata sombreada, as árvores se fecham sobre o caminho, você faz uma parada em Palmas sem fazer ideia do que vem a seguir — e aí as árvores se abrem e ela está ali. Uma longa curva de areia fina e clara, a água variando do verde ao turquesa e uma linha de ondas chegando do mar aberto. É a praia mais famosa do Brasil, conhecida no mundo inteiro, e merece cada pedacinho dessa fama. Depois da caminhada de ida, a chegada cai como uma recompensa que a floresta escondeu de você o caminho inteiro.
Resumo rápido. Caminhada clássica T10 + T11 saindo do Abraão · ~7,2 km · 2h30–3h15 só na ida, conforme o ritmo · moderada a difícil · passa pela Praia de Palmas a caminho de Pouso · é uma praia de preservação, mantida selvagem e quase sem estrutura — leve a sua própria água e comida · depois de chuva, fica escorregadia.
A jogada inteligente em que quase ninguém pensa: ir a pé por um lado e voltar de barco pelo outro. Feita inteiramente a pé, Lopes Mendes é um dia inteiro — algo como cinco a seis horas de caminhada na ida e na volta, antes de você ter passado qualquer tempo na praia. Então, para quase todo mundo, a jogada é ir a pé pela mata sombreada da T10 (com a parada em Palmas), aproveitar a praia e voltar de barco — ou o contrário. Dois serviços saem do Abraão — uma escuna e um barco-táxi mais rápido — e te deixam perto de Pouso, a uma curta caminhada pela T11 (~1 km, 30–40 min) da areia. Pegue a pulseira oficial de retorno antes de sair, para que um barco te recolha. Não coloco aqui valores nem horários, para que nunca fiquem desatualizados — todo o detalhamento está no guia de praias.
📍 Veja o trajeto completo no Wikiloc
Dica de local — a ponta deserta. Em vez da T11, combine T10 + T12 (cerca de 4 km até a ponta) e saia onde quase ninguém vai a pé — muitas vezes você tem a praia mais famosa do Brasil só para você: a mesma areia fina, a mesma água turquesa, sem a multidão. Para voltar, siga em direção a Pouso pela T12, ou caminhe cerca de 2 km pela areia e pegue a T11. De qualquer jeito, os barcos recolhem do lado de Pouso: planeje a sua volta por lá.
O que evitar
- Não subestime o bate-volta de um dia inteiro a pé. Nos dois sentidos, são cinco a seis horas de trilha antes de qualquer tempo de praia. A não ser que você queira mesmo a caminhada longa, vá a pé por um lado e volte de barco pelo outro.
- Não perca o último barco. Saia cedo para chegar à praia com folga — se você for a pé e perder o barco da volta, vai voltar a pé, e a mata escurece rápido.
- Não encare a trilha com leveza depois de chuva. Ela fica escorregadia — vá com calma, principalmente nas descidas.
- Não chegue de mãos vazias. Leve pelo menos 2 litros de água por pessoa e a sua própria comida: a praia é mantida selvagem e a areia aberta tem pouca sombra. E cuidado com as ondas do mar aberto — são suaves, mas é swell de verdade.
Dois Rios

Resumo rápido. Trilha T14 · ~7,2 km cada trecho · cerca de 2h30 só na ida (~5 h ida e volta a pé) · altitude máxima de apenas 235 m · funciona com qualquer tempo · nenhum serviço no caminho — leve a sua própria água · saia de Dois Rios até as 15h30 para a volta.
O lugar que eu recomendo acima de todos os outros na ilha. Você vence a última subida e tudo simplesmente se abre lá embaixo: uma praia de mais de um quilômetro, abrigada no fundo de uma baía profunda, quase sempre coroada pela sua própria faixa de nuvem baixa — um capricho do tempo que, em todos os meus anos aqui, eu só vi em Dois Rios. Dois rios escuros, tingidos de tanino na cor de refrigerante (os moradores chamam de “rios de Coca-Cola”), descem da floresta e encontram o mar bem aqui — duas fozes, dois rios, e aí está o nome. Espalhado pela areia, um povoado minúsculo e meio abandonado, onde a Mata Atlântica e o Atlântico vão engolindo o concreto em silêncio: casas vazias, paredes rachadas, trepadeiras entrando pelas janelas. Se você já jogou Uncharted 4, já conhece a sensação.
É também um lugar de passado fora do comum. Uma plantação de café, depois uma vasta fazenda, depois uma das prisões mais infames do Brasil — e é um dos pouquíssimos lugares do planeta resgatado de ser uma prisão (e de virar um resort de turismo de massa) e, em vez disso, mantido meticulosamente preservado. O presídio foi demolido em 1994 e transformado em museu. Todo o terreno pertence à UERJ, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de modo que ninguém pode se instalar, morar ou comprar um lote aqui — as poucas famílias que restam são herdeiras dos antigos guardas, ainda cuidando da sua herança. Conta-se que jacarés já foram soltos nos rios para desencorajar as fugas pela água; no fim, dizem, o povo acabou comendo os jacarés. Quando você chega, a polícia penal que ainda fica por aqui faz uma checagem discreta. Pouquíssimos viajantes chegam até tão longe.
Como chegar. Do Abraão, pegue a Estrada de Dois Rios e simplesmente siga em frente — é toda a navegação que você precisa. É uma estrada larga de terra cravada na montanha, construída na época do presídio para levar funcionários e presos de caminhão e micro-ônibus. Não se assuste com os avisos abaixo: é larga e mais ou menos plana, chegando no máximo a 235 m — nada de escalada, e qualquer caminhante em forma razoável dá conta. Quando você chega, a comida é caiçara — os pescadores cozinham o que pescam; você come com os dois rios cor de refrigerante desaguando no mar dos dois lados e a mata avançando sobre as casas vazias atrás de você.
O que ninguém te avisa: a volta. A pé, Dois Rios é um dia inteiro — cerca de 2h30 cada trecho, algo como 5 horas de caminhada no total. Não existe barco com horário marcado de volta para o Abraão. Às vezes aparece um barco informal, mas é caro — uns R$150–R$200 por pessoa (com sorte, várias pessoas dividindo, talvez ~R$100). E aquele suposto barco das 16h30 não é garantido: se não juntar dinheiro suficiente para o combustível, ele simplesmente não sai, mesmo com duas pessoas implorando. Então planeje voltar a pé e saia de Dois Rios até as 15h30, no máximo — uma hora antes da partida hipotética do barco — ou o escuro te pega na trilha.
Um dia simples que funciona: saia do Abraão por volta das 8h00 → chega ~10h30 → algumas horas na praia e no museu → comece a voltar até as 15h30 → de volta no Abraão ~18h00, com luz do dia. Leve água e comida suficientes para o dia todo — não há onde reabastecer nem comprar no caminho.
📍 Veja o trajeto completo no Wikiloc
O que evitar
- Não pegue “o atalho”. A antiga trilha indígena corre paralela à estrada de terra — uns 3,2 km mais curta, e tentadora justamente por isso — mas não é mais limpa, então está tomada pelo mato e praticamente intransitável. Fique na estrada larga e siga sempre em frente.
- Não conte com barco de volta. Trate qualquer carona de volta como bônus, nunca como o seu plano (veja o quadro da volta acima).
- Não deixe para tarde. Saia a pé até as 15h30 — mais tarde e você vai estar na trilha depois de escurecer, sem nenhum serviço e sem saída fácil.
Feiticeira

Resumo rápido. Trilhas T1 + T2 · ~3,9 km até a praia (~5,4 km fazendo o circuito completo das ruínas) · moderada · altitude máxima de apenas ~160 m · até a praia, com o desvio da cachoeira: ~1h40–2h só na ida · na volta, sem a cachoeira: ~1h20–1h40 · aqui o barco de volta é tranquilo: ~R$35 por pessoa · comece a voltar antes das 15h30 (no fim do dia a praia lota com a turma dos passeios de barco) · leve repelente e use calçado adequado.
No verão da Ilha Grande, a mata vira uma sauna. A temperatura pode chegar aos 40°C, e depois da chuva a umidade fica tão densa que a trilha solta vapor à sua volta — você caminha dentro do calor. É exatamente por isso que a cachoeira é redentora: quando você chega à Cachoeira da Feiticeira, a única coisa que você quer no mundo é se jogar nela, e você sai de lá com a sensação de ter renascido. É um caminho histórico — trechos calçados com pedra antiga, trechos assentados com madeira, argila avermelhada sob os pés — atravessando uma das porções mais exuberantes de Mata Atlântica da ilha: jiboias-gigantes subindo pelos troncos, palmeiras altas e, no caminho, o poção, uma piscina natural tão clara e verde que faz você parar no meio do passo. Boa parte do percurso você faz sozinho, com o sol descendo pela copa das árvores em manchas de luz. História, mata e silêncio — é esse o motivo inteiro de fazer essa trilha.
O trajeto, trecho a trecho. Começa na trilha T1, na entrada do Parque Estadual da Ilha Grande, onde você vai avistar uma guarita amarela e a primeira bifurcação.
| Trecho | O que você faz | ~Tempo |
|---|---|---|
| 1. Primeira bifurcação (na guarita) | À esquerda = subida suave até o antigo aqueduto, passando pelas ruínas do Lazareto (um antigo hospital de quarentena do século XIX). (À direita segue no nível do mar até a Praia Preta e a Praia do Galego — um acréscimo opcional de praia, melhor na ida.) | — |
| 2. O aqueduto | O ponto de decisão natural: continuar ou voltar? Um bom lugar para parar e um lugar honesto para se comprometer. | — |
| 3. A subida | Uma única subida contínua até no máximo apenas ~160 m, e depois uma descida de volta para quase o nível do mar. | — |
| 4. Segunda bifurcação (perto do fim) | À esquerda, sobe de novo até o estrondo frio da Cachoeira da Feiticeira — dá para mergulhar direto e nadar. Vale muito a pena. | — |
| 5. Até a praia | Volte à T2 e siga para o norte até a Praia de Feiticeira. | — |
| 6. Totais | Até a praia com a cachoeira: ~1h40–2h só na ida. Na volta sem ela: ~1h20–1h40. | moderada |
Você chega à Praia de Feiticeira suado da subida e com vontade de mar: uma enseada pequena e muito bonita, barcos balançando ao largo — e uma volta fácil.
A volta sem caminhar. Diferente de Dois Rios, aqui o barco de volta é genuinamente fácil: cerca de R$35 por pessoa. A Praia de Feiticeira é a última parada dos passeios de barco mais populares da ilha, então quase sempre há barcos-táxi informais e barcos com um lugar sobrando — uma volta tranquila, às vezes com uma cerveja gelada a bordo.
📍 Veja o trajeto completo no Wikiloc
O que evitar
- Não fique na praia depois das 15h30. Como a Feiticeira é a última parada dos passeios mais populares, os barcos chegam no fim do dia e a praiazinha lota. Aproveite o seu tempo de praia e comece a voltar antes das 15h30, para curtir antes de a multidão chegar.
- Não saia sem repelente e calçado adequado. A mata é úmida e cheia de insetos, e a pedra, a madeira e a argila vermelha são escorregadias — calçado de trilha salva os seus tornozelos.
- Não ache que precisa repetir a cachoeira na volta. Pular o desvio da segunda bifurcação no retorno corta um bom pedaço do tempo (~1h20–1h40 em vez de ~2h) — faça o mergulho uma vez, na ida, quando o calor já o tiver merecido.
Pico do Papagaio

Resumo rápido. Dificuldade DIFÍCIL · trilha T13 · ~12 km ida e volta (~6 km cada trecho) · quase 1 km na vertical · 5 a 7 h de caminhada mais o tempo no cume · cume 982 m · guia cadastrado obrigatório para a subida do amanhecer · cerca de R$230–R$380 por pessoa com guia.
Você sai do Abraão por volta das 2 da manhã, no escuro, com as pernas que não tinham a menor obrigação de estar acordadas. Por três horas você sobe quase um quilômetro na vertical à luz da lanterna de cabeça, e o seu mundo inteiro encolhe até o pedaço de trilha à sua frente e a respiração de quem está ao seu lado. Aí você chega lá em cima, a 982 m — o segundo ponto mais alto da ilha — e o céu começa a se mover. Vermelho, depois um anil profundo, depois branco, depois um azul amarelado e pálido e, por fim, o próprio sol se levanta do mar. É como ver o amanhecer pela janela de um avião, só que você veio andando. As nuvens sobem para te visitar. Ninguém fala muito. Depois da noite que você teve, chegar lá parece menos alcançar um mirante e mais ser perdoado por alguma coisa.
É por isso que as pessoas se submetem a tudo isso. A leste, a baía inteira se abre — montanhas empilhadas até o horizonte, a densidade e a imensidão do mar — e, em dia claro, o continente do outro lado da água. Então por que nascer do sol e não pôr do sol? Olhe para oeste do cume e você terá a resposta: poucos metros mais alto que você está a Pedra d’Água (~1.035 m), o verdadeiro ponto culminante da ilha, exatamente onde precisa para bloquear um pôr do sol limpo. Por isso o espetáculo aqui é o amanhecer — e o amanhecer vale despertador que nenhum ser humano deveria obedecer.
No que você está se metendo. Esta é a caminhada mais exigente da ilha. Você sobe quase 1 km na vertical num aclive íngreme e contínuo. Conte 2,5–3,5 h de subida e 2,5–3,5 h de descida — algo como 5 a 7 horas de caminhada, mais o tempo lá em cima. A altitude é modesta, mas o esforço cobra seu preço de verdade: tem gente que descreve o ar do cume como rarefeito, mesmo que, no papel, ele não devesse ser.
Onde começa. Do Abraão você pega a Estrada de Dois Rios (também chamada de Estrada da Colônia) e caminha cerca de 2 km de subida até a entrada da trilha do Pico do Papagaio. É ali que a subida de verdade — a trilha T13 — começa.
Duas formas de fazer
Existem exatamente duas formas honestas de subir essa montanha, e são dias muito diferentes.
| De dia, sem guia | Para o amanhecer, com guia | |
|---|---|---|
| Quando você sai | Cedo — de preferência 7h–9h (quanto mais cedo, melhor) | Por volta das 2h |
| Guia | Não obrigatório | Obrigatório por lei — e realmente necessário |
| O que você ganha | Uma subida de dia pesada e linda; volta tranquilo com luz | O espetáculo do amanhecer — o motivo pelo qual quase todo mundo vem |
| De volta por volta de | Meio/fim da tarde (~6–7 h no total) | Por volta das 8h–9h da manhã no Abraão |
| Legal? | Sim — a opção de dia, segura e legal | A subida noturna sem guia cadastrado é proibida |
Se você fizer de dia, saia entre 7h e 9h, percorra a Estrada de Dois Rios até o início da trilha e suba. Você está de volta tranquilo antes de escurecer — e ainda cruza com quem está descendo do amanhecer enquanto você sobe.
Se você quer o amanhecer, a subida noturna por conta própria, sem guia, está proibida há dois anos. Você precisa contratar um guia legal, cadastrado — não um guia qualquer de uma agência qualquer. Os guias cadastrados são treinados especificamente para essa subida, e esse treinamento é justamente o ponto.
⚠️ Tudo o que você precisa antes de ir.
- Por que o guia é realmente necessário — isto não é jogada de venda. São 12 bifurcações e cruzamentos no caminho de subida que só os guias sabem ler. De dia dá para seguir o caminho mais pisado; à noite é muito difícil enxergar, e há muitos relatos de gente que se perdeu. E aqui vem a parte que ninguém gosta de dizer em voz alta: não existe estrutura de resgate nessa montanha — não há Corpo de Bombeiros nem guarda-parques do INEA treinados ou dispostos a subir e te tirar de lá. Subir sozinho no escuro é uma irresponsabilidade séria, e eu não vou recomendar.
- Como achar um guia. É fácil — procure no Google Maps ou no Instagram e fique com o mais bem avaliado; eu preferiria os guias mais antigos e experientes, registrados no CADASTUR (o cadastro nacional de turismo). Quase toda agência de Abraão vai te vender a subida — muitas vezes revendendo os mesmos guias — então resolva por conta própria em vez de depender da sua pousada. E sim, nós, os locais, temos um favorito: não vou dizer o nome aqui — ele não me paga nada, e eu prefiro manter a sua confiança — mas as avaliações dele vão entregar quem é.
- Conte ao seu guia qualquer condição de saúde. Se você tem hipoglicemia, diabetes, tendência a crises de pânico ou algo parecido, conte antes de sair para que ele fique de olho em você. Uma subida pesada às 2h da manhã não é hora de bancar o valente.
- 💰 Quanto custa. Algo em torno de R$230–R$380 por pessoa para ser guiado ao amanhecer e cuidado no caminho — dinheiro muito bem gasto.
- Leve bastões de trekking para a descida. Todo mundo fica obcecado com a subida, mas é na descida que o seu peso se multiplica sobre os joelhos e tornozelos — e você chega nela ou depois de uma noite sem dormir ou depois de uma subida quente e ensolarada. A maior parte do risco do dia mora na descida, não na subida.
Lá em cima, antes de as cores chegarem, faz frio e quase silêncio — só o vento, os primeiros pássaros acordando a floresta abaixo de você, e as pessoas que subiram com você.
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O que evitar
- Não suba à noite sem guia cadastrado. É proibido, não há resgate se algo der errado, e as 12 bifurcações são realmente difíceis de ler no escuro. Essa é a que eu faria questão de insistir.
- Não subestime a descida. Ela é tão longa quanto a subida (2,5–3,5 h) e mais dura para as articulações. Sem bastões, sem cuidado, e um ótimo dia vira um dia com lesão.
- Não espere pôr do sol aqui em cima. A Pedra d’Água bloqueia. Se você quer o espetáculo, venha para o amanhecer.
Uma última coisa, mais silenciosa. Levar a si mesmo do ponto A ao ponto B com a própria força é uma das coisas mais básicas do que é ser humano, e deixar a sua mente carregar o seu corpo montanha acima permite colher uma recompensa que a natureza, de outro jeito, mantém escondida. Se você chegar ao topo no amanhecer, grave um time-lapse — qualquer celular serve, até um antigo — e você leva para casa as cores do nascer do sol a mil metros de altura. É a perfeição da natureza, por um instante organizada em algo dentro do qual um humano pode ficar de pé.
Circuito Histórico de Vila do Abraão (T1)

Resumo rápido. Trilha T1 · ~3 km, cerca de 1 hora · plana e fácil · realmente para a família toda — crianças e avós são bem-vindos · começa no mesmo ponto da trilha da Feiticeira (a mesma guarita amarela do guarda-parque) · o aqueduto é onde você dá meia-volta — siga em frente além dele e você cai na trilha mais longa da Feiticeira · leve água (e a sua própria comida, se a ideia for ficar numa praia): é tudo mata por lá — nenhum quiosque, nenhuma loja, nada · depois de chuva, a argila fica escorregadia.
Esta é a trilha tranquila. Em cerca de uma hora, quase toda plana, a ilha inteira é entregue de mão beijada para você — a história, a mata, as praiazinhas silenciosas — sem que você precise conquistar nada com uma subida pesada. É a caminhada que eu indico para famílias: pare onde algo chamar a sua atenção, enrole o tempo que as crianças quiserem, e deixe que nada exija de você além de estar entre as árvores.
As ruínas do Lazareto são o coração disso tudo, e o motivo de esse passeio fácil ficar com você. É uma construção do século XIX, com o seu aqueduto do século XIX ainda de pé no meio da mata — erguida como estação de quarentena para os imigrantes que chegavam pelo mar, retidos aqui antes de serem liberados para o continente, e depois leprosário, uma colônia para pessoas com hanseníase mantidas longe do mundo. E conta-se — história de boca, dessas que os moradores mais antigos contam, não coisa escrita em livro — que, antes de tudo isso, foi um lugar de aprisionamento das pessoas escravizadas que passavam pela ilha. Fique de pé entre as paredes quebradas, com a mata voltando a crescer por dentro delas, a luz descendo entre as folhas, o cheiro de pedra úmida, o canto dos pássaros onde houve tanto sofrimento — e tudo isso fica muito perto de você.
O circuito, do jeito simples. Ele começa logo ali, ao lado do cais principal da Vila do Abraão, na entrada do Parque Estadual da Ilha Grande — a mesma guarita amarela onde começa a trilha da Feiticeira. Dali:
| Trecho | O que você faz |
|---|---|
| 1. Na guarita, vá à direita | Você está na T1 — ela te leva à Praia Preta, às ruínas do Lazareto e à Praia do Galego. |
| 2. Uma segunda bifurcação | Te conduz às piscinas naturais — o poção — e ao antigo aqueduto. |
| 3. No aqueduto, dê meia-volta | Este é o seu único ponto de decisão. Volte daqui em direção ao Abraão e você fez o circuito redondinho de ~3 km, ~1 hora. Siga em frente e você se comprometeu com a trilha da Feiticeira — uma bela aventura, mas um dia bem mais longo. |
Você segue o mesmo caminho o tempo todo, então não tem como se perder — só lembre que o aqueduto é onde se dá a volta. O piso é liso e plano o bastante até para avós com passo inseguro num dia seco; depois de chuva a argila avermelhada fica realmente escorregadia, então para quem anda com dificuldade (ou com carrinho de bebê) deixe para um dia seco.
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O que evitar
Não saia de mãos vazias e não passe direto pelo aqueduto sem querer — é só isso que importa lembrar. Depois você refaz o caminho de volta por essa mata fácil e luminosa carregando o peso do Lazareto com você, e esse contraste silencioso — história pesada, horinha tranquila — é exatamente o que faz da T1 a primeira a se fazer.
Qual trilha é a sua?
Agora que você já conhece as cinco, aqui vai o jeito honesto e rápido de escolher a sua.
Com pressa? Primeira vez, com crianças ou com os avós, ou você só quer uma vitória fácil → faça o Circuito Histórico (T1). Só quer a foto de impacto → Lopes Mendes. Todo o resto está abaixo.
Ache a linha que mais soa como o seu dia e confira se o tempo e o esforço cabem para você.
| Se você quer… | Faça a… | Tempo | Esforço |
|---|---|---|---|
| Algo curto e fácil — com crianças ou com os avós, ou a primeira trilha | Circuito Histórico (T1) — a história da ilha nas ruínas do Lazareto | ~1 h | Fácil, plana · crianças SIM |
| A praia famosa — aquele cartão-postal turquesa, um dia inteiro de praia | Lopes Mendes — vá a pé por um lado e volte de barco pelo outro | ~meio dia | Moderada, caminhada + barco |
| Um desafio de verdade e um amanhecer épico lá do topo | Pico do Papagaio — guia CADASTUR pago, saída ~2h, só no amanhecer | ~5–7 h | Difícil · não para crianças pequenas |
| História somada à natureza bruta e selvagem — um dia inteiro de aventura | Dois Rios — uma prisão virada museu e uma praia entre dois rios escuros · Escolha do editor | ~5 h ida e volta | Moderada · sem barco garantido na volta, saia até 15h30 |
| Uma cachoeira para se jogar e refrescar | Feiticeira — mata atlântica, o poção e volta fácil de barco | ~2 h até a praia | Moderada · barco barato na volta |
Ainda em dúvida? Três critérios de desempate:
- A mais difícil, disparada — o Pico do Papagaio. O grande esforço, a grande recompensa.
- O maior isolamento — Dois Rios, aonde pouquíssimos viajantes chegam. (Dá para chegar também à ponta deserta de Lopes Mendes pela T10 + T12 — mas essa é uma rota longa e dura por terra, não o dia de praia fácil de barco lá de cima.)
- A que eu te mandaria fazer acima de todas — Dois Rios. É a minha número um, pessoal — mas é um dia inteiro (~5 h); se for a sua primeira trilha, ou se você estiver com crianças ou com os avós, comece pelo Circuito Histórico (T1).
Qualquer uma que você escolher, saia cedo, leve água e deixe a floresta cuidar do resto — todas são gratuitas, e todas são suas.
A rede de trilhas (T1–T16)
A Ilha Grande tem 16 trilhas sinalizadas (T1 a T16). Para referência, aqui estão todas com a distância e o tempo de caminhada oficiais — as cinco trilhas acima são montadas a partir delas:
| # | Trilha | Distância | Tempo |
|---|---|---|---|
| T1 | Circuito Abraão | 1.800 m | 1 h |
| T2 | Aqueduto – Saco do Céu | 5.800 m | 3 h |
| T3 | Saco do Céu – Freguesia de Sant’Anna | 4.000 m | 2 h |
| T4 | Freguesia de Sant’Anna – Bananal | 3.000 m | 1 h |
| T5 | Bananal – Sítio Forte | 5.000 m | 3 h 30 |
| T6 | Sítio Forte – Praia Grande de Araçatiba | 5.000 m | 3 h 30 |
| T7 | Praia Grande de Araçatiba – Gruta do Acaiá | 5.300 m | 2 h |
| T8 | Praia Grande de Araçatiba – Provetá | 4.500 m | 2 h 30 |
| T9 | Provetá – Aventureiro | 3.500 m | 2 h 30 |
| T10 | Abraão – Mangués – Pouso | 5.000 m | 2 h 30 |
| T11 | Mangués – Pouso – Lopes Mendes | 1.100 m | 50 min |
| T12 | Mangués – Pouso – Farol de Castelhanos | 6.000 m | 3 h |
| T13 | Abraão – Pico do Papagaio | 6.000 m | 3 h 30 |
| T14 | Abraão – Praia de Dois Rios | 7.000 m | 2 h 30 |
| T15 | Praia de Dois Rios – Caxadaço | 4.200 m | 2 h 30 |
| T16 | Praia de Dois Rios – Parnaioca | 7.500 m | 2 h |